sábado, 2 de agosto de 2008

A Arte de Contar Histórias II

A partir da postagem anterior senti necessidade de escrever também algumas dicas, com base na minha experiência e no conhecimento da teoria de Jean Piaget.

Quem já contou história para crianças de diferentes faixas etárias e adolescentes percebe que há grandes diferenças, a começar pelo tempo de concentração. Conhecendo os níveis de desenvolvimento segundo Piaget, podemos entender melhor estas diferenças e adaptar nossa maneira de contar as histórias para melhor atingir o “público”. Para isto dividi as “dicas” por faixa etária, como um parâmetro, mas elas são absolutamente flexíveis.

Crianças de 0 a 2 anos

As crianças menores de 2 anos, dificilmente se concentrarão nas histórias, mesmo que seja uma história super interessante, contada por um excelente contador de histórias. Isto porque elas estão centradas mais na ação do que na representação (e toda história é uma representação do real) Desta forma as histórias para esta fase deverão ser cheias de ação, de preferência que o contador de história imite não apenas a voz, mas os atos dos personagens e convide as crianças a fazer o mesmo.

Não há a menor necessidade de seqüência lógica da história, por incrível que pareça para nós adultos... Não apenas pelo tempo de concentração que dura aproximadamente 5 minutos, mas pelo próprio fato dela não estar interessada na história, mas nas ações, como já foi dito. Assim, uma história pode começar ou terminar em qualquer página do livro. Pode-se inclusive contar uma história com apenas uma página. Algumas pessoas, percebendo o desinteresse das crianças desta fase em ouvir a história até o fim, começam a contar a história mais rápido, para conseguirem concluí-la logo. Esta necessidade de chegar ao final da história é uma necessidade do adulto, não da criança.

As ilustrações da história devem ser coloridas, mas simples, sem muita “poluição”. Os livros de pano e de banho são ótimos, pois elas não se contentam em “ver” as imagens. A criança desta fase conhece o mundo através da boca e das mãos.

É importante trabalhar também a centração e discentração da atenção nas figuras, através da mudança de página, ou de várias figuras em uma mesma página.

Crianças de 2 a 4/5 anos

Esta é uma fase deliciosa para contar histórias, pois as crianças realmente acreditam nas histórias (diferente do faz de conta). Muitas podem inclusive ficar com medo dos personagens. Este medo é absolutamente normal. Não se deve evitar contar histórias de bruxa ou lobisomem por isso. Alguns adultos, no entanto, aproveitam este medo e o intensificam quando usam os personagens das histórias para ameaçar as crianças (por exemplo, o lobo pega criança que não se comporta, que não obedece...) Isto sim é muito ruim para o desenvolvimento das crianças.

As histórias vão ganhando paulatinamente seqüência lógica (início, meio e fim), mas a ação ainda é fundamental. Todas as dicas dadas por Lúcia Fidalgo na postagem anterior podem ser utilizadas nesta fase.


Crianças de 4/5 a 7/8 anos

Nesta fase a criança vai saindo do simbolismo onde tudo tem vida e a criança acredita nas histórias e vai entrando no faz de conta (eu sei que as coisas não falam, mas faz-de-conta que elas falam).

Há nesta fase um interesse pela língua escrita. A criança quer saber o que está escrito no livro, quer fazer a correspondência da palavra ouvida com a escrita, por isso quer que a gente conte igualzinho. Podemos, além de contar as histórias, ler para ela, apontando inclusive com o dedo, mas mantendo a mudança de voz nas falas dos personagens.

As crianças de 5 a 7/8 anos são geralmente centradas em um único ponto de vista, desta forma resistem a mudanças. Quando contamos uma história de outro jeito, a forçamos a fazer também uma mudança de ponto de vista, e isto é positivo para o desenvolvimento. Por mais que as crianças peçam para repetir as histórias, vale de vez em quando contar a história da chapeuzinho amarelo em vez de vermelho, usar uma voz diferente para o lobo, ou mesmo inventar um final diferente para a história.

A partir dos 7/8 anos

A partir daí vale tudo! Ler, contar, dramatizar as histórias! Explorar todos os sentidos, como disse Lúcia Fidalgo no texto da postagem anterior.

Muitas pessoas acham que as histórias infantis não servem mais para esta faixa etária. Um engano! As mesmas histórias podem ser lidas em momentos diferentes do desenvolvimento, a cada leitura percebem-se dimensões que antes não eram percebidas, como a moral, as figuras de linguagem, a ironia, etc.

É uma pena que muitos pais e professores vão deixando de contar histórias na mesma proporção que as crianças vão crescendo... E depois ainda se queixam dos adolescentes não gostarem de ler... Como se história fosse coisa só de criança... se fosse assim não gostaríamos tanto de cinema, pois o que é o cinema se não uma forma de contar histórias?


2 comentários:

Psicólogo Bruno Pereira Gomes disse...

Parabéns pelo blogue! Gostei mesmo muito! Bom trabalho

Arlete disse...

Andrea muito bom, gostei! Estava procurando outra coisa, mas seu blog foi um achado. Parabéns pelo seu trabalho.